* O porto fora do território e a fome canina

Se escrever fosse fácil já teria escrito dez livros. O que incita  o pensamento na execução de seu exercício para a escrita? O que há de tão moral nesta forma de expressão que esbarra na ação e enerva as vísceras?

Saída: escrever com vísceras impuras. Jogar dados a despeito do acaso das formas de sua queda. Fazer uso de forças sem regra.

As primeiras forças, as vejo, batem à porta. É o bramir do vento. Encosto-me, deito-me sobre o vento… e se me dou conta do que se passa, caio no vazio. Alternativas? Fosse fácil. Fácil nada é. Ressentimento não dá cabo da pulsão, já disse o Persi. Há algo a ser exercitado: o indizível. Que passa pelo corpo e se rostifica nas palavras, feitas, já dadas. Também não existe saída de uma linha só. Nó se desfaz à aurora de tempos vivos. Tempos não ordenados constituem palavras germinativas, um corpo de texto. Recuo. Não perdoo. Mudo de ideia, produzo uma ideia. Perduro. Encontro uma tangência, duro, permaneço na tangência, avizinho a escolha… há algo no delirar que me anima, maquina outros bois, como o boi alheio ao tempo de Drummond. Haja hoje para tanto ontem… vejo estrelas e as persigo numa mata selvagem, virgem de mim.

Baba, larva impura. Algoz passagem de um atrevimento em chamas. Ousa arrebentar abismos, ousa ouvir o eco desconhecido de um sussurro morto. Quiseram-no morto, mortificá-lo. Mas o sussurro persiste, é uma voz que ressoa da solidão. Na voz sussurrada da solidão há um pássaro. Algoz e livre. Arde em pura chama, ama seus abismos. Clarifica passagens. Espreita e sonha. Seu sonho é um movimento rebento. Acredita que sonhos são bússolas e não utopias. Hacer verbo mais conjugado, porém imperceptível. O ato alumia, torna-se passagem que desrostifica os amálgamas de extratos pesados, de chumbo tóxico.

A boca pede nascente fresca. Ela opera seus quereres. O que deseja a boca a boca deseja. Conjurar a verdade não, não passará, não passarão não. O corpo sim! Que com sua boca quer o voo do pássaro na imanência de onde advém aquilo que não passa pela boca. Num tropeço salto aflora outros de si. O si mesmo em atualidades estranhas de um dentro/fora aspira-se como em partículas de poeira cósmica, correntes, ondas, serpentes.

Devaneios habitam o desejo do pássaro. Vive do gosto por instabilidade, estados de perplexidade, mesmo que produzidos. Observa e cartógrafa suas torrentes compartilhadas pela experiência prática na vida deste mundo. Prefere produzir sua resistência na condição do risco, seu pondo de maior mobilidade. A escolha do traçado está fadada ao corpo, é ele quem responde às afecções da vida como se tudo lhe parecesse óbvio. Estender o corpo, ampliar a escuta do corpo, além dos ecos da solidão, assim amplificar o arsenal de conexões. O corpo acontece enquanto vive e se afirma. Encontra na alegria a prova dos nove. Frágil e leve corpo de pássaro.

O delirar não é uma linha imaginária, é um cachorro latindo, um recorte ampliado de afetos revolucionando-se, em vias de revolução multitudinária. E se todo mundo ficar doido? Só o afeto salva! Um fora de si a ser experimentado, num entre mundos. São muitas portas, diversos aparelhos acoplados, sistemas obsoletos. Há uma centelha de resistência no lugar de ser inútil que ascendente à imanência, um conforto na grande mistura das substancias. Não há sintaxe que me tire a graça do que passa. E se, se, se, se, criar alguma razão. Não existe resposta única para o que é múltiplo e pula, salta como sapo e perereca. Corpo no cosmo que não navega em suas forças está sujeito às intempéries. medo. amor. impulso. alegria. e salto. A escrita de si parece um sistema em perpétuo desequilíbrio, uma fonte inesgotável de animismo perplexo com suas forças e formas em variação. Partículas no tempo… Amanhã já não farei o mesmo texto.

Sabrina Batista Andrade


 

Texto "baba" apresentado em 4/11/15 a orientação de Suely Rolnik no curso de Mestrado em Psicologia Clínica - Núcleo de Subjetividade da PUC/SP.

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